MORTO
20 20UTC março 20UTC 2011 Deixe um comentário
O cavaleiro acordou subitamente, de um sonho profundo que ele nunca iria se lembrar. Ele só podia ver escuridão onde estava nenhum barulho podia ser ouvido, e ele não conseguia se mexer. Ele quase entrou em pânico naquele momento, mas nenhuma sensação veio até ele, nenhum enfraquecimento nas pernas, nenhuma vontade de fugir dali, ou qualquer desequilíbrio causado pelo medo.
Ao invés disso, o cavaleiro tentou pensar, lembrar como pudera chegar ali, onde estava e o que poderia fazer. Ao pensar um pouco, ele percebeu que não sabia de nada, nem o seu próprio nome.
Uma sensação de câimbra se espalhou por suas pernas e braços, e seus dedos puderam se mexer. Então percebera um grande peso que havia por todo o seu corpo. Quando todos os seus sentidos voltaram á sua cabeça ou rosto, ele continuou não podendo ver ou ouvir nada, mas percebeu que, seja lá qual fosse o peso por cima dele, este estava entrando por sua garganta e narinas, ele concluiu que era terra.
Incontáveis minutos depois, ele concluiu que aquilo não deveria ser um problema grave, por que por algum motivo ele podia continuar a respirar. Ele podia sentir o gosto da terra, mas não conseguia saber se era uma sensação boa ou ruim. Era apenas outra sensação para ele.
O cavaleiro tentou mover terra com seus dedos, tentando abrir espaço para os braços. A terra parecia mole, como se fosse recém movida. Ele começou a pensar no que isto poderia implicar, talvez tivessem feito com ele o mesmo que faziam com aqueles que não se mexiam mais. Seja lá o nome dado para isto…
Enterrado, lembrou ele. Mas havia algo de errado, demorou um pouco mais para ele concluir o que; ele ainda podia se mexer, mesmo que pouco, ele ainda não estava pronto para ser enterrado, ele estava vivo.
Ele sentiu raiva, ele estava vivo e lhe trataram como se fosse o contrário, embora ele não conhecesse o termo para isto, era a primeira emoção que sentira desde que acordara. Alguém havia lhe tratado como um não-vivo mesmo que ele fosse um, e o cavaleiro iria se vingar de quem lhe fizera isto. Se ele pelo menos soubesse quem odiava.
Alguns centímetros, mesmo que poucos, de terra haviam sido retirados, quando todo o solo caiu por cima dele, lhe imobilizando novamente. Ele desistiu antes de começar aquele trabalho que poderia ser inútil ele deveria tentar pensar um pouco mais, saber o que estava acontecendo.
Imagens se formaram lentamente em sua mente, sombras, um ponto brilhante em um pano de fundo azul, outras pessoas, uma pequena besta de olhos tristes ele se lembrou de várias sensações, o frio, o calor, a melancolia, a alegria e o medo. Ele conseguia se lembrar de quase tudo que acontecia acima da terra, mas não conseguiu se lembrar como acabara por baixo. Ao tentar fazer isto, lhe vinha à cabeça à imagem de uma espada de quatro lâminas, e das sombras se levantando para lhe rasgar.
Então, pela primeira vez naquela quantidade misteriosa de tempo, ele conseguiu ouvir sons. Era o barulho de um objeto metálico batendo contra o solo repetidamente. Pá, ele se lembrara da ferramenta, alguém estava lhe trazendo de volta para o mundo dos vivos. O servo da ordem de Walter tentou fazer um sorriso em seu rosto, mas ele não conseguia mover o lado direito de seu rosto, ele sequer conseguia senti-lo.
O tempo passou e o som se aproximava cada vez mais, e de repente outro som surgiu como de algo tentando cavar com as unhas. Então o cavaleiro sentiu a ferramenta de metal atingindo sua perna, talvez a perfurando um pouco, embora ele não sentisse dor.
A pá se retirara, e logo mãos e unhas retiravam toda a areia e pedras, o peso por cima do braço esquerdo diminuía o bastante para poder ser erguido, e foi o que ele fez. Sua mão se levantou pelo ar livre, procurando por apoio, alguém agarrou esta e puxou, o cavaleiro conseguiu se levantar, espalhando terra e sentindo o ar da noite. Ele logo foi cegado por uma forte luz vinda de seu lado, e soltou a mão que o ajudara para proteger os olhos.
-Vamos, está se sentindo bem? Alguma coisa faltando? Vamos, beba isto – Disse uma voz ao lado, enquanto ele ouviu o som de algo de vidro sendo levantado. O cavaleiro de Walter tentou falar alguma coisa, mas apenas sentiu algo no fundo de seus pulmões lhe impedindo. Então ele apenas ergueu a mão na direção da qual a voz vinha, e a outra pessoa lhe passou um prato, que guardava algum líquido, e bebeu. Ele sentia um gosto familiar, que lhe trazia imagens de pessoas se ferindo, mas ele se sentiu muito melhor com aquilo, e pôde abrir seu olho.
Ele estava em um buraco de alguns poucos metros, era de noite e o seu estava limpo, sendo iluminado pela lua e dezenas de estrelas. Havia um homem por perto, já saindo do buraco com a pá em mãos, ele estava vestindo com mantos negros, difíceis de distinguir da escuridão, mesmo estando próximos de uma lamparina acessa.
Esta pessoa misteriosa se aproximou do cavaleiro e ergueu as duas mãos á frente dele. “Espere alguns minutos, eu tenho de ter certeza que você não vai se desfazer de repente”, ele abaixou a cabeça e começou a mexer as palmas em pequenos círculos. O outro não podendo se comunicar, esperou impacientemente, e começou a olhar em volta para alimentar pelo menos um pouco de sua curiosidade.
O buraco parecia estar em uma planície, ao lado do que parecia ser uma estrada de pedras. E um pouco atrás do monte de terra escavado, havia uma espada fincada na terra, que parecia ser muito importante para ele. O cavaleiro virou sua cabeça o máximo que pôde para a direita, ele não conseguia ver nada no seu lado esquerdo, e percebeu meia dúzia de figuras altas, ele prendeu seu olhar naquelas figuras por alguns momentos, e lentamente a escuridão se dissipou, e lentamente ele identificou as figuras: Pessoas amarradas em troncos de madeira, mortas com cortes em seus corpos; por baixo de cada um destes corpos havia uma pele, que ele logo identificou como peles de lobos, onde se acumulava o sangue dos respectivos corpos. “Homens-lobos” Disseram uma voz velha e talvez mal humorada em sua mente.
Ele voltou seu olhar para frente, para o homem de manto negro, seus movimentos diminuindo lentamente, e o cavaleiro percebeu que em sua mão direita havia as tatuagens de ossos, representando os ossos do próprio membro. Em seu manto, havia um símbolo semelhante á um quatro. A mente dele começou a juntar tosos os elementos do quebra-cabeça, e ele se sentiu acordando como se lhe jogassem água fria. “O glifo da morte”.
Ele empurrou o homem de sua frente, e correu em direção á espada, ainda que suas pernas estivessem duras. Em sua pequena corrida seu pé entrou em um pequeno buraco na terra, e ele caiu ao chão, ouvindo o barulho de algo se partindo e ele parou de sentir sua perna esquerda. Apesar disto, apoiando-se em sua perna restante, ele se levantou e pegou a arma em suas mãos, retirando-a do chão e a apontado-a para o outro.
Através de seu olho, ele viu o homem do manto escuro parado, olhando para a lâmina fixamente. Por um momento ele virou sua atenção para esta, vendo um símbolo desenhado nela; uma espada de quatro lâminas, e algo escrito logo abaixo em letras pequenas, mas que ele pôde ler rapidamente:
Aghato Largney, Cavaleiro da Ordem de Walter
Era seu nome e titulo, que ele havia esquecido. Esta pequena mas importante memória lhe afetou, mas logo ele voltou sua visão para frente; para naquele instante ser derrubado no chão.
Aghato não pôde sentir o seu impacto no chão, talvez ele pudesse resistir ao impacto se ainda pudesse sentir sua perna direita. Ele conseguiu manter a espada em suas mãos, e assim que pôde ele tentou mover a arma em direção ao seu atacante.
Mas ele percebeu que era um pequeno animal que o derrubara, um cachorro de patas curtas, branco e de várias manchas marrons, suas orelhas longas e caídas, seu olho amarelo e o verde; ambos contornados de preto, dando um olhar triste para o animal. Ele estava mostrando os dentes e rosnando para Aghato, ele não conseguiu atacar o cachorro, que por algum motivo era importante para ele. O cavaleiro ergueu a mão para tentar acalmar o cachorro.
-Acalme-se. Eu estou aqui para te ajudar, acalme-se e poderemos conversar calmamente.
O cachorro saiu de cima do cavaleiro, já calmo. Este se virou para o outro, tentando falar algo novamente, e novamente percebendo que não podia falar, ele ainda mantia a espada em sua mão.
-O seu pulmão ainda está cheio de terra, em breve você irá absorvê-la por completo, até mexa os lábios que eu poderei ler.
Se apoiando na espada, Aghato se levantou novamente e tentou falar outra coisa.
-Sim, eu admito que utilize do glifo de Stixns, mas não acredite em todas as lendas, hoje eu estou trabalhando em favor do bem.
-Não, eu não tenho uma prova completa, apenas acredite em mim baseado no fato que eu te tirei de um buraco, e que eu te deixarei em paz em alguns momentos-Disse ele em resposta as palavras não pronunciadas de Aghato.
O cavaleiro apontou para os corpos amarrados por perto enquanto fazia outra pergunta.
-Eles eram servos de uma bruxa, que você mesmo matou – Aghato logo pôde se lembrar disto – Eu apenas usei de seu sangue para te ajudar. Cavaleiro, você veio aqui para combater uma bruxa, uma bruxa eu lhe digo. Você lutou bem mas caiu em batalha, enquanto que ela escapou. Não, eu não posso deixar uma mancha tão perversa no mundo escapar, por isso eu te ajudei. Perceba, alguns momentos atrás você estava MORTO, se não fosse à gravidade da situação você deveria estar me agradecendo.
O choque foi menor para o cavaleiro do que ele esperava, talvez ele já soubesse de seu estado em seu subconsciente. Após refletir por alguns momentos, ele perguntou para o homem, sem fazer nenhum som, “O que eu sou neste momento?”, seu trabalho exigia que ele conhecesse algumas criaturas desmortas, ele até ouvira sobre os confrontos de Baldur com estas criaturas, e nenhuma história era agradável.
-Você é um homem, você ainda é o que era antes, você apenas terá alguns hábitos diferentes. – Ele colocou a mão por dentro do manto e dela retirou um envelope, preso por um selo de cera com a marca de uma mão esqueletal, ele também retirou um pequeno saco fechado de seu cinto. Ele se abaixou e colocou os dois objetos no chão – Meu mestre me chama de volta para a cidade dos ossos, então eu não poderei te explicar tudo, o que a carta por dentro do envelope poderá fazer, esta sacola contém um pouco de carne seca, coma e eu acho que sua perna poderá melhorar, embora as cicatrizes não possam ser curadas. Faça o que quiser depois que eu for embora, eu sei que você irá querer ir atrás da bruxa, você não estaria vivo se não quisesse. Apenas evite pessoas devido a sua nova…aparência.
O homem logo se virou, de mãos escondidas por baixo do manto, se virou para o outro lado e começou a andar apressadamente. Ele não podia ver Aghato daquela posição, portanto este não tentou falar mais nada.
Ele se arrastou em direção aos objetos, já estando sujo de terra ele não se importou, e os pegou. Com a sua espada servindo de apoio ele se levantou, e tentou colocar eles no bolso, antes de perceber que também estavam cheios de terra. Ele deixou a espada da ordem fincada no chão enquanto retirava a sujeira dos bolsos, o cachorro se aproximou dele e deitou em cima de seu pé. Aghato apenas pensava no que poderia fazer em alguns instantes e no seu futuro em geral, ele pensava se aquilo realmente acontecera, afinal, ele não se sentia morto, embora ele não sentisse quase nada, enquanto que sua vida voltava lentamente para sua mente. O que seus companheiros pensariam disso? Ele não poderia voltar à ordem de Walter até resolver tudo aquilo.
Então, enquanto retirava terra de sua roupa, ele encontrou um pequeno cacho de fios de cabelos vermelhos, como os seus mas mais claros, amarrados por um barbante. Aquilo trouxe um pouco de paz á Aghato, que passou algumas horas naquele local apenas observando aquele caxo, a vida era algo bom para ele, e talvez ele realmente devesse estar agradecendo.
Horas depois o sol nasceria, seria um novo dia para aquela estrada, e um novo dia para os mortos.







