Sob os Olhos das Gárgulas – Parte 1
28 28UTC novembro 28UTC 2010 Deixe um comentário
ALPHA
Centenas de letras estavam espalhadas de forma caótica pelo papel, e o homem da montanha tentava ordena-las. Em uma enorme sala, cercada de estantes e seus livros e pergaminhos, um local limpo de qualquer espécie de traça ou de teias de aranha. Era um local silencioso, ocupado apenas pelo homem sentado em uma das mesas do canto e um servo limpando o chão, sendo que a própria luz do sol já abandonava o local.
O homem era alto, dois metros de altura, de largos ombros e um nariz grosso. Sua testa era coberta de cabelos que foram penteados para não cobrir os seus olhos, sendo que estes não eram os detalhes mais chamativos daquele indivíduo: Eram os dois olhos totalmente amarelos, de cor semelhante a do ouro, que pareciam brilhar sob certas fontes de luz, o que não era uma visão muito agradável para certas pessoas. O homem tinha um casaco de um marrom pouco chamativo, sapatos sujos da terra de uma longa caminhada e uma capa de cor azul jogada sobre uma cadeira ao lado. O homem era Ordis, e estava procurando por respostas naquele confuso pedaço de papel.
A sua frente, estava uma folha de carta com letras espalhadas de todos os jeitos, não formando uma única palavra conhecida. Esta folha era cercada por alguns livros abertos, em suas páginas estavam diagramas e textos falando sobre mensagens ocultas, códigos secretos e técnicas para decifrá-los. Ordis estava desde a madrugada estudando aquela folha que ele furtara, naquela biblioteca quase escondida em um pequeno bairro, mas ele não conseguira decifrar nada, sua mente e seus amarelos olhos estavam cansados.
Ele olhou de relance para cima, onde havia janelas que deixavam à luz do sol encontrar as estantes e livros, e percebeu que o dia já estava para acabar. O fino som, semelhante á um violino, das luzes que voavam pela cidade começou a soar. Logo viriam para lhe pedir que ele se retirasse, e ele não queria que alguém desse atenção a sua face ou visse os documentos que ele estava examinando, e começou a se retirar. Ele começou a fechar os livros, de forma lenta e ainda olhando para as páginas esperando ter uma idéia de ultimo momento, mas nenhuma veio. Ele dobrou a críptica folha e a guardou em seu sapato, junto ao calcanhar. O alto homem deixou os livros empilhados sobre a mesa e se virou lentamente para se dirigir á saída.
-Tente usar cera quente, funcionou comigo. E não se esqueça de levar sua capa – Disse uma voz vinda de trás de uma das estantes, falando de forma causal.
Ordis se curvou para o lado para ver quem lhe falava. Era o jovem servo vestido em azul que tirava poeira das paredes com a ajuda de um espanador. Antes que o homem da montanha pudesse dizer algo, o trabalhador lhe respondeu.
-Na minha infância eu e meus amigos trocávamos mensagens secretas deste jeito. Derrube um pouco de cera quente sobre ela e a mensagem de verdade aparece.
Ordis não continuou aquela “conversa”, ele colocou a capa sobre os ombros e partiu para fora dali. Ele não sabia quem era aquele estranho individuo, nem se trabalhava para alguém de fora da biblioteca, nem se ele o reconhecera ou era apenas um homem com pouco a fazer.
Ao sair às ruas quase vazias, o homem da montanha pôde ver duas estátuas de pedra com o formato de morcegos e olhos de esmeralda no alto dos prédios ao redor, gárgulas. Ele passou por elas sem se preocupar, pois sabia com suas experiências que ninguém usava as estátuas vigias daquela rua enquanto não era noite. Ele colocou os dedos a boca e soltou um assobio que de tão baixo mais parecia um sussurro, e então esperou um pouco enquanto olhava desconfiadamente para os outros lados da rua.
Então se pôde ouvir o som de cascos vindo em direção ao alto homem, seguido por uma carruagem de madeira escura com dois braços recurvados a sua frente e nenhum cavalo visível lhe puxando. Ordis correu em direção a ela e entrou de forma apressada.
Dentro daquele veículo haviam cordas ligadas diretamente á ele, com uma janela que permitia que os passageiros vissem o caminho a frente. Enquanto as forças invisíveis puxavam a carroça para frente, o homem dos olhos dourados se sentou e voltou começou a pensar. Ele refletiu sobre tudo o que acontecera nos últimos dias, desde daquele curto funeral, a sua visita ao necrotério, ele furtando aquela misteriosa carta, e todas as inúteis horas entre os livros.
Em meio aos seus pensamentos, ele pegou a vela para leitura presa ao teto daquela pequena carruagem. Ele virou aquele objeto de cera por entre seus dedos por alguns segundos, pensando nas possíveis conseqüências do que estava para fazer; a cera poderia destruir o documento, talvez o que aquele estranho servo queria que ele fizesse. Mas sua curiosidade não parava de lhe atormentar, aquilo poderia ser a chave para o que ele procurava.
“Na dúvida, vá em frente, se der certo deu certo; se não, bem, poderia ser pior” As palavras de Alice ressoaram nas suas memórias. Como que por impulso, o homem das montanhas girou o disco de metal que envolvia a vela, lhe acendendo, retirou a carta de seu esconderijo e a colocou por debaixo da chama laranja.
Logo, a cera começou a se acumular na ponta daquela vela, e então uma gota caiu no papel. A cera tocou na folha e quase imediatamente esta se incendiou, uma pequena chama de um vermelho intenso surgiu, consumindo rapidamente a superfície daquele documento. Pego de surpresa, Ordis jogou ambos os objetos em sua mão para o outro lado, apagando a vela, e momentos depois aquela folha.
O alto homem se curvou para o lado tentando ver o que sobrara. Ao invés das cinzas que ele esperava, pôde-se ver que apenas as letras foram queimadas, dando local á palavras legíveis. Imediatamente ele pegou a vela de volta, a acendeu e em seguida espalhou gotas de cera por todo o resto do documento, ignorando o fogo que surgia momentaneamente.
Com o texto completamente revelado em suas largas mãos, ele tratou de ler aquelas palavras o mais rápido possível, perdendo a atenção de todo o resto a sua volta. Uma expressão feroz surgiu em seu rosto, ele agarrou as cordas que comandavam aquela carruagem e a dirigiu para o outro lado da cidade, apesar de todos os riscos.
A luz da lua crescente já entrava pelas vidraças daquela casa. Em frente á um grande circulo de vidro, um homem aproveitava a visão da cidade enquanto bebia de uma taça de vidro em sua mão direita. Era uma grande sala com algumas mesas e estantes pelo local, estas decoradas com esculturas simples de cera, representando pessoas de corpos descobertos. Havia também uma pintura de dois metros de altura representando um forte homem segurando o planeta em suas costas, mas o que mais chamava a atenção era o som de passos vindo de trás da tela.
Puderam-se ouvir trancas e grandes pedaços de metal se movendo, e o quadro começou a se afastar da parede como uma porta, rangendo gravemente neste movimento. O homem á janela ignorou estes acontecimentos, já acostumado com as pessoas que usavam aquela passagem. Ele bebeu mais um gole de sua taça e a colocou numa mesa próxima. Ele então parou de observar a paisagem urbana e olhou casualmente para trás, tentando identificar que era o visitante daquele dia, e viu uma figura que parecia se misturar com a escuridão daquela sala, coberta de uma capa de um azul negro, que o encarava com olhos de um brilho amarelo.
Ele não reconhecera aquele visitante, e saltou para o lado, sua mão já abrindo uma das gavetas daquela sala, em busca de algo para se defender. Ordis deu um largo passo para frente e então ergueu seu pé, pressionando-o contra a mesa, esmagando a mão do senhor daquela torre. Ele teve de se segurar para não gritar de dor, tentando puxar seus dedos para longe da mesa, só conseguindo quando o homem da montanha deixara.
Ele esfregou os seus dedos para tentar passar a dor, enquanto encarava o invasor, esperando pelo seu próximo movimento. Este colocou sua mão por dentro de sua capa e dela retirou um papel enrolado.
-Senhor Charlemgne, esta letra deve pertencer a você – Disse Ordis, abrindo o papel e mostrando para o outro. – Nós temos de discutir sobre isto.
-O que? O que está acontecendo?
-Sobre os restos mortais de Alice d’ Necri – Ele falou ignorando a pergunta – aonde vocês os levaram?
-Você está se enganando, eu sequer estou envolvido neste tipo de negócio…
-Onde? – Interrompeu o homem da montanha, aproximando o papel ao rosto do outro, levantando o seu tom de voz, mas sem perder a calma. – Nesta semana o seu caixão fora retirado do cemitério, por pedido desta carta, que por acaso foi escrita por você. Agora, se quiser que eu vá embora, apenas diga; Onde. Ela. Está?
-Ordis Erlhevos – Disse ele, finalmente percebendo o que acontecera, e começando a formular um plano em sua velha mente – Por que você acha que pode fazer isto? Você não pode ameaçar a nós deste jeito, o polvo tem braços por toda a cidade, faça alguma coisa e nós poderíamos acabar com a sua vida e de toda a sua “família”. – Os dedos de Ordis começaram a segurar o papel com mais força, amassando-o – Poupe a vida de todos eles e saia daqui. Esqueça o que viu.
-Eu consegui chegar aqui, não? O “polvo” não é tão influente quanto você pensa.
-E você acha que todos os outros não vão perceber que você invadiu minha casa e me ameaçou? Sua mente não está funcionando bem, você perdeu um ente querido e eu posso até entender isto. Não vale a pena lutar por isto, são apenas os ossos dela, eles servirão á um propósito maior, saia daqui e você não irá perder nada.
Ordis foi surpreendido, talvez ele tenha agido de impulso este tempo todo, ele sequer acreditava de verdade nos rituais de seu povo. Talvez ossos fossem apenas ossos, a Alice real havia morrido e não tinha mais ligação com este mundo.
Ele se virou para trás, observando a saída e pensando se poderia esquecer tudo aquilo e sair como se não acontecesse. Ele se sentira extremamente ofendido, como se estivessem desrespeitando toda a sua família, mas mesmo assim ele tinha dúvidas se poderia realmente ferir aquele homem caso ele não lhe contasse nada.
Neste momento, o senhor daquela torre voltara a se dirigir á gaveta, procurando por uma espada retrátil que ele mantinha em sua coleção.
-Pense nisto, ela nem era sua filha autêntica – Ele conseguiu segurar o pequeno tubo de madeira inscrito com símbolos azuis, apenas um movimento e aquilo se tornaria uma espada completa e ele poderia se defender adequadamente.
Ao ouvir estas palavras, o homem de olhos amarelos se virou bruscamente para o outro, rosto expressando profunda fúria. Esta raiva apenas aumentou quando ele viu a arma na mão daquele que escrevera a carta. Em um impulso ele agarrou o homem pelo pescoço, seus dedos apertando e tentando sufoca-lo, enquanto o levantava á vários centímetros do chão, neste movimento uma lâmina se desdobrou formando uma espada fina e curvada. Antes que ela pudesse ser usada, Ordis deu um passo em direção á janela circular e atirou o homem através dela.
Pedaços de vidro voaram pelo ar, violentamente e em todas as direções, para finalmente pousarem no chão ou nos tetos das casas em volta. O som destes se quebrando se misturou com o som de um desesperado grito, seguido pelo som de algo pesado se quebrando e então o silêncio. As gárgulas do formato de homens alados perceberam aquilo, e rapidamente a guarda cinzenta já se dirigia para lá.
Quando Ordis percebera o que fizera, quando ele percebeu que perdera o controle, ele também percebeu que havia ido longe demais naquela estrada. Depois daquele ato não haveria mais volta, ele teria de sofrer as conseqüências.
Ele se virou para a porta metálica que levaria para as ruas. Talvez ele pudesse se entregar para a guarda, e confessar o homicídio. A guilhotina lhe traria descanso.
Mas isto seria arruinar seus filhos, seria baixar a cabeça frente ao polvo, e seria trair suas promessas de juventude. Seria trair Alice.
O homem alto correu pela sala, abrindo gavetas bruscamente e procurando por tudo que poderia lhe indicar o que fazer; documentos, símbolos e algumas daquelas folhas com mensagens escondidas por dentro. Ele retirou sua capa, enrolou tudo o que encontrara e a levou nas costas, como um saco.
Enquanto o som das armaduras e das pessoas curiosas se formava em volta, o homem da montanha abriu o quadro novamente e saiu por aquela passagem oculta. A passagem levaria por um caminho por debaixo dos canais e lhe levaria á uma área longe da vigília das gárgulas. Era uma passagem indicada na carta, através da qual o destinatário poderia receber seu pagamento.
Aquela mesma carta marcada com o símbolo do polvo.